Claude no Obsidian,
do jeito que funciona
Como eu conecto um agente ao meu vault para ele virar um segundo cérebro de verdade. Sem arquivar a internet inteira, sem estourar a janela de contexto, sem confiar no gráfico bonito. Vinte minutos de leitura e um vault inicial para baixar.
Por que arquivar site não é segundo cérebro
O vídeo que eu comentei mostrava um vault crescendo sozinho: o Claude visitava sites, salvava cada página como nota, e o gráfico do Obsidian ia ficando cheio de bolinhas conectadas. Parece conhecimento acumulando. Na prática, três coisas acontecem.
A nota envelhece no dia seguinte. Preço, versão, regra, tudo que estava no site muda, e a sua cópia não. Quando você precisa da informação, precisa da versão de hoje. O agente consegue visitar o site na hora e trazer a versão fresca. Guardar a cópia só cria a chance de ele responder com dado velho, com a mesma confiança de sempre.
Cada nota arquivada custa contexto. O Claude não "sabe" o que está no seu vault. A cada pedido, ele lê arquivos e coloca o conteúdo na janela de contexto, que tem limite. Uma página da web média, clipada em markdown, ocupa entre 3 e 7 mil tokens. Trinta páginas lidas num pedido comem a maior parte de uma janela de 200 mil. Um vault cheio de cópia de site é um vault em que o agente gasta a janela lendo lixo antes de chegar no que importa.
Ninguém relê. Eu já tentei. A pasta de "leituras" vira um cemitério com gráfico bonito. O gráfico do Obsidian mede quantas notas se citam; não mede se alguma delas foi aberta de novo.
E o Obsidian, por si só, não é segundo cérebro nenhum. É um editor de markdown que abriu em beta em março de 2020, dois anos e meio antes do ChatGPT. Excelente editor. O que faz uma pasta de arquivos virar cérebro é a estrutura que você impõe nela, e é sobre isso que este playbook trata.
O vault não é o que você guarda. É o que o agente consegue não ler para responder o seu pedido.
O que vai no vault, e o que não vai
Teste de entrada para qualquer nota: só guarde o que só você sabe. Se a informação existe num site, o agente busca lá. Se ela só existe na sua cabeça, na sua reunião ou na sua decisão, ela precisa estar no vault, senão morre.
| Vai | Não vai |
|---|---|
| Decisões, com data e motivo | Cópia de página da web |
| Estado atual de cada projeto e o próximo passo | PDF de terceiro guardado "para ler depois" |
| O que aconteceu, dia a dia, em três linhas | Transcrição bruta de reunião sem destilar |
| Como você gosta de trabalhar, correções que deu ao agente | Documentação de ferramenta (o agente lê a oficial) |
| Onde ficam coisas fora do vault (link, pasta, pessoa) | Senha, token, chave de API |
| Conclusão de uma pesquisa, compilada | A pesquisa inteira sem compilar |
Repare que a coluna da esquerda é pequena e cresce devagar. É assim que deve ser. Eu rodo esse modelo desde maio nas três empresas que toco e o vault continua legível para uma pessoa. Se o seu cresce mais rápido do que você consegue explicar, alguma cópia está entrando.
Setup em 20 minutos
Sem plugin, sem servidor MCP, sem sincronização de terceiros. O Obsidian já salva tudo como arquivo .md numa pasta comum. O Claude Code, que é a versão de terminal do Claude, abre nessa pasta e lê e escreve os arquivos direto. Os dois olham para o mesmo disco. É isso.
1. Instale o Claude Code
Precisa de uma assinatura Claude (Pro, Max ou Team) ou de créditos de API. No Mac ou Linux, cole no terminal:
curl -fsSL https://claude.ai/install.sh | bash
No Windows, no PowerShell:
irm https://claude.ai/install.ps1 | iex
Confirme com claude --version. Na primeira vez que rodar claude, ele abre o navegador para você entrar na sua conta.
2. Baixe o vault inicial e abra no Obsidian
Baixe o zip, descompacte onde quiser (fora do iCloud e do Google Drive, explico na seção 07) e no Obsidian escolha "Abrir pasta como vault". O zip já vem com a configuração do Obsidian para usar links em markdown comum, que é o formato que qualquer agente lê sem tropeçar.
Se preferir criar do zero, a estrutura é esta:
meu-vault/
├── CLAUDE.md o mapa: quem sou, regras, onde fica o quê
├── projetos/
│ ├── CLAUDE.md como operar aqui (carrega só quando entra)
│ └── nova-loja/
│ └── CONTEXT.md estado, decisões, próximo passo
├── diario/
│ ├── CLAUDE.md
│ └── 2026-09-08.md um arquivo por dia, só acréscimo
├── memoria/
│ ├── CLAUDE.md
│ ├── INDEX.md uma linha por fato
│ └── resposta-curta-primeiro.md
└── pesquisa/
├── CLAUDE.md regras do modo pesquisa (seção 06)
└── _modelo/ raw/ e wiki/ para copiar por tema
3. Abra o terminal dentro do vault e rode o Claude
cd caminho/para/meu-vault
claude
Primeiro pedido, para conferir que ele entendeu o mapa:
leia o CLAUDE.md e me diga como este vault funciona, sem abrir as outras pastas
Se ele resumir as quatro pastas e a regra de leitura sem sair vasculhando o vault, está funcionando. Dentro da sessão, /context mostra exatamente quais arquivos foram carregados. Use isso sempre que suspeitar que ele leu demais.
4. Troque o bloco "Quem sou"
Abra o CLAUDE.md raiz no Obsidian e substitua as duas linhas de exemplo pelas suas. Cargo, empresa, o que ocupa o seu dia. Só isso. O resto do arquivo é regra, e as regras funcionam para qualquer pessoa.
O Claude Code também funciona no VS Code, no app de desktop e no navegador, apontando para a mesma pasta. O terminal é só o caminho mais curto.
As quatro peças que fazem o vault virar cérebro
O que separa uma pasta de notas de um segundo cérebro são quatro arquivos com papéis fixos. O vault inicial já vem com todos. Aqui vai o que cada um faz e por que existe.
Peça 1. O CLAUDE.md raiz é mapa, não depósito
É o único arquivo que o Claude lê em toda sessão, automaticamente, antes do seu primeiro pedido. Por isso ele precisa ser curto: o do vault inicial tem 47 linhas e uns 650 tokens. A documentação oficial recomenda ficar abaixo de 200 linhas, e por experiência eu diria que a metade disso já é muito.
O que vai nele: quem você é em três linhas, a tabela de pastas com "quando entrar" em cada uma, a regra sobre web, o formato de escrita e o que fazer ao terminar uma tarefa. O que não vai: qualquer conteúdo. Se você se pegar colando informação no CLAUDE.md, ela pertence a uma pasta, e o CLAUDE.md só precisa apontar para lá.
Peça 2. Um CLAUDE.md por pasta, carregado sob demanda
Esta é a peça que a maioria pula, e é a que protege a janela de contexto. O Claude Code carrega o CLAUDE.md de uma subpasta apenas quando lê algum arquivo dentro dela. Então as regras de como escrever no diário só entram na sessão quando o pedido é sobre o diário. As regras de compilação da pesquisa só entram quando você abre uma pesquisa.
É carregamento em camadas. O agente carrega o mapa, decide a pasta, carrega o contrato daquela pasta, e só então lê os arquivos. Cada pedido custa o mínimo que aquele pedido exige.
Peça 3. O diário, um arquivo por dia, só acréscimo
Aqui vai o que aconteceu: o que foi feito, o que foi decidido, o próximo passo. Uma entrada tem hora, assunto e três a seis linhas. Nunca se edita entrada antiga; se algo mudou, entra uma entrada nova dizendo que mudou.
O diário é a peça que faz o agente lembrar de ontem sem você repetir. "O que a gente decidiu na terça?" vira uma leitura de um arquivo, não uma conversa do zero. E como cada dia é um arquivo, ele lê só os dias que o pedido cobre.
Ao final de cada tarefa, o CLAUDE.md raiz manda o agente registrar no diário se houve decisão. Você não precisa lembrar de pedir.
Peça 4. A memória, um fato por arquivo, com índice
Fatos duráveis sobre você e sobre como você quer trabalhar: "resposta curta primeiro", "nunca sugerir ferramenta paga sem eu pedir", "o financeiro fecha dia 5". Um arquivo por fato, com o motivo e o que muda no comportamento do agente. Um INDEX.md com uma linha por fato.
O agente lê o índice, que é minúsculo, e abre o arquivo só quando aquele fato importa para o pedido. É a mesma lógica do mapa: índice leve na frente, detalhe atrás, sob demanda.
O Claude Code tem uma memória automática própria, fora do vault, que ele preenche sozinho. Eu prefiro a memória dentro do vault: você enxerga no Obsidian, edita à mão, e ela vale para qualquer outro agente que você usar no futuro.
E o CONTEXT.md de cada projeto
Não é uma peça nova, é onde as quatro se encontram. Cada projeto tem um único arquivo com estado atual, decisões datadas e próximo passo. Quando você pede algo sobre o projeto, o agente lê esse arquivo e nada mais. Quando uma decisão é tomada, ele atualiza esse arquivo e registra no diário. O CONTEXT.md é a única fonte de verdade sobre o projeto, e é por isso que ele fica legível: se está lá, é o estado real.
Como pedir as coisas
O vault certo com pedido errado continua gastando janela à toa. Cinco pedidos que funcionam e dois que não.
- Funciona"Registra no diário o que a gente acabou de decidir sobre a loja." O agente escreve três linhas no arquivo de hoje e atualiza o
CONTEXT.mddo projeto. - Funciona"Visita a página de preços da plataforma X e me diz o que mudou desde a decisão que está no CONTEXT.md. Não salva a página." Web fresca, comparada com a sua decisão, sem cópia.
- Funciona"Lê só o CONTEXT.md da nova loja e me lista os próximos passos." O "só" evita a varredura.
- Funciona"Guarda na memória: eu não quero sugestão de ferramenta paga sem pedir." Vira um arquivo e uma linha no índice.
- Funciona"O que aconteceu na semana passada? Lê os dias 1 a 5 do diário." Escopo declarado, cinco arquivos lidos.
- Não funciona"Lê o vault inteiro e me diz o que você acha." Ele vai ler, gastar a janela e responder algo genérico. Nunca há motivo para um pedido precisar do vault inteiro.
- Não funciona"Salva esse artigo aqui para a gente usar depois." O "depois" não chega. Peça a conclusão em duas linhas com o link, ou abra um tema de pesquisa (próxima seção).
A dica que mais muda o resultado: diga onde ler. "No CONTEXT.md da loja", "nos dias 1 a 5", "no índice da memória". O mapa do CLAUDE.md já ajuda o agente a decidir sozinho, mas o pedido que nomeia o arquivo nunca erra.
Modo pesquisa: quando salvar fonte faz sentido
Existe um caso em que juntar fontes no vault é a coisa certa, e ele tem nome. Em abril de 2026 o Andrej Karpathy descreveu como usa LLMs para montar bases de conhecimento: as fontes vão para uma pasta raw/, o agente compila um wiki de arquivos markdown em cima delas, com resumos, artigos por conceito e links cruzados, e depois responde perguntas lendo o wiki. O Obsidian é a interface; o agente escreve e mantém o wiki, e ele quase nunca edita à mão.
Parece o que o cara do vídeo fazia. Não é. A diferença cabe numa palavra: arquivar é acumular, compilar é destilar. O cara do vídeo salvava páginas e olhava o gráfico. O Karpathy salva fontes para um tema delimitado, manda o agente transformar em artigos, e daí em diante consulta os artigos, não as fontes. Eu faço o mesmo quando abro uma pesquisa de verdade, e são poucas por ano.
Como funciona no vault inicial
A pasta pesquisa/ tem um _modelo/ para copiar a cada tema. Dentro dele, raw/ recebe as fontes (você coloca, o agente não mexe) e wiki/ é do agente. O CLAUDE.md da pasta, que só carrega quando você entra nela, diz a regra de compilação: a cada fonte nova, um resumo de até 15 linhas em wiki/fontes/, os artigos de conceito afetados em wiki/conceitos/ atualizados citando a fonte, e o wiki/INDEX.md com uma linha por artigo e por fonte.
Para perguntar, o agente lê o índice e abre só os artigos relevantes. Só volta ao raw/ se o wiki não bastar. O raw/ nunca é lido inteiro.
Três regras que evitam que o modo pesquisa vire o problema da seção 01
- Tema com pergunta e critério de fim. O
CONTEXT.mddo tema começa com "a pergunta que esta pesquisa responde" e "fecha quando". Sem isso é coleção, não pesquisa. - O agente só lê o wiki. Se você se pegar pedindo "lê o raw inteiro", o wiki está mal compilado. Peça "revisa o wiki": ele procura contradições, fatos sem fonte e conexões que ainda não viraram artigo, e lista antes de mudar.
- Quando acaba, o raw sai. O agente escreve um
CONCLUSAO.md, o wiki fica, e oraw/vai para fora do vault ou para o lixo. O que sobra no vault é o que você aprendeu, não o que você baixou.
Para levar um artigo da web para o raw/, a extensão Obsidian Web Clipper resolve, e é a que o próprio Karpathy usa. O erro nunca foi a extensão. Foi clipar sem ter para onde compilar.
As armadilhas
Todas essas eu vi acontecer, e em algumas eu caí primeiro.
- 01Arquivar web sem compilarÉ a do vídeo. A nota envelhece, custa contexto e não é relida. Web é sob demanda; a exceção é o modo pesquisa, com regra de compilação e data para acabar.
- 02CLAUDE.md que vira depósitoEle é lido em toda sessão. Cada linha que você acrescenta é cobrada em todo pedido, para sempre, mesmo nos pedidos que não têm nada a ver. Conteúdo vai para a pasta; o mapa só aponta.
- 03Vault sem mapaSem a tabela de "quando entrar", o agente decide sozinho o que ler, e a tendência é ler muito. É o caso em que cada pedido consome o vault inteiro sem necessidade. O
/contextdenuncia: se aparecem arquivos que o pedido não pedia, falta roteamento. - 04Sincronização brigando com o agenteiCloud, Google Drive e Dropbox sincronizam enquanto o agente escreve. Resultado: arquivos duplicados com "conflicted copy" no nome e trechos perdidos. Vault fica em pasta local. Se precisa de backup ou de vários computadores, use git; o vault inicial já vem com o
.gitignorecerto. - 05Segredo dentro do vaultO agente lê o que está no vault e pode reproduzir em qualquer lugar: numa resposta, num arquivo, num commit. Senha, token e chave de API ficam fora, num gerenciador de senhas ou num
.envignorado. OCLAUDE.mddo vault inicial manda o agente avisar e não salvar se aparecer um. - 06Deixar o agente criar pasta onde quiserEm duas semanas você tem
notas/,notes/,anotações/emisc/. A regra no mapa é "arquivo novo só onde o mapa diz; em dúvida, pergunte". Pasta nova é decisão sua, não dele. - 07Links no formato do ObsidianO padrão do Obsidian é
[[nota]]. Funciona lá dentro e confunde fora: outro agente, outro editor, o GitHub. O vault inicial já configura links em markdown comum,[texto](caminho.md), que todo mundo lê. - 08Confiar no gráficoO gráfico mostra citações entre notas. Um vault de cópias de site tem gráfico lindo e zero conhecimento seu. Um vault bem roteado tem gráfico feio e responde qualquer pergunta sobre a sua operação. Prefira o feio.
- 09Plugin que dá ao agente "acesso total ao vault"Servidores MCP e plugins que expõem o vault inteiro como uma ferramenta de busca parecem mais poderosos. Na prática duplicam contexto e tiram de você o controle de o que é lido. O sistema de arquivos já é a integração. Não precisa de mais camada.
Se você não quer terminal
Dá para fazer com o app de desktop do Claude apontando para a pasta do vault, seja pelo modo de trabalho em pastas do app, seja por um servidor MCP de arquivos. A estrutura de pastas e os quatro arquivos são os mesmos, e valem do mesmo jeito.
A troca que você faz: o app não carrega o CLAUDE.md sozinho nem o CLAUDE.md de cada pasta sob demanda. Você cola o conteúdo do mapa nas instruções do projeto e o agente carrega tudo o que decide carregar, sem a camada. Funciona, mas a proteção da janela de contexto passa a depender de você nomear o arquivo em cada pedido. Se em algum momento você abrir o terminal, a pasta já está pronta; nada precisa ser refeito.
O que eu quero de volta
Eu rodo este modelo no meu próprio sistema desde maio de 2026, para as três empresas em que sou CTO e para os projetos pessoais. Ele é a razão de eu conseguir trocar de assunto vinte vezes num dia sem reexplicar nada ao agente. Não porque o vault é grande. Porque cada pedido lê pouco.
Monta o seu. Vinte minutos com o vault inicial, um projeto real dentro, uma semana de diário. Depois me manda uma mensagem no Instagram contando o que quebrou e o que ficou de pé. Eu leio tudo, e é dali que saem os próximos playbooks.
Vault inicial
A pasta pronta para abrir no Obsidian e rodar o Claude Code dentro: mapa, um CLAUDE.md por pasta, projeto de exemplo, diário, memória com índice e o modelo do modo pesquisa. Links já em markdown comum.
Montou? Me conta no direct do Instagram o que quebrou e o que ficou de pé. É dali que saem os próximos playbooks.
Dante Araújo @dantearaujo